Segundo dia de atendimento em Oriximiná. O dia foi mais agitado e puder conhecer várias histórias. As distâncias aqui me impressionam ainda.
Viagens de barco. Horas remando. Tudo por um atendimento no Prevbarco. Isso não é um menosprezo. Mas penso no que eles passam para chegar até nós.
Andamos horas para chegar aqui, e mesmo assim, encontramos pessoas que fizeram trajetos parecidos ou maiores que o nosso.
Isso só demonstra que, as distâncias são gigantescas. Vivênciamos o acesso ao direito previdenciário através do Prevbarco, mas que, para, além disso, fico imaginar quantos mais aqui queriam chegar. Quantos não tiveram condições de sair dias antes. Quantos fizeram previsões e aqui não chegaram.
O Prevbarco consegue uma façanha incrível, e é por isso que sua existência é de fundamental importância para uma nação tão grande que apresenta o acesso aos direitos ainda muito limitado.
Eu sabia que viria para o Prevbarco. Inicialmente pensei que iríamos passar e parar nas comunidades ribeirinhas. Quando cheguei em Oriximiná vi que nosso local de parada é a cidade. O meio urbano. Mas as histórias que cheguem aqui, essas sim, são legítimas da Amazônia que ousei a pensar. Claro, ela é muito maior que meus pensamentos. Tem muito mais particularidades do que meus pensamentos.
Hoje pensei mais uma vez o que é viver no isolamento. Penso sempre na condição da pobreza e tudo que a ela remete. Vivemos um estado de pobreza que não é nada romântico como alguns querem fazer. É um estado de pobreza que dói no estômago, que machuca. Mas unir, extrema pobreza com isolamento social. Isso sim é difícil.
Alguns podem discursar, “nos conglomerados urbanos ainda encontramos pessoas isoladas”. Mas nos conglomerados urbanos não vivemos o dia-a-dia da falta de comunicação, do medo de morrer por ataques de animais, da luta por uma miséria de educação.
Quando soube que crianças da região saem às 2 horas da manhã para ir à aula, pensei, “que Brasil, em que tipo de Brasil eu vivo”, “o que é ser criança”. Dificilmente elas descobrirão o que é ser criança, a que brinca, que dorme a noite, que tem sono tranqüilo, que tem acesso a alimentação. Enfim, só torço que sejam felizes na sua infância, que façam um dia da pobreza uma lembrança, uma barreira já ultrapassada.
Antes que pensem, ou que comentem... eu não tenho a pretensão de fazer desse diário um estudo teórico, não neste momento.
Estou à vontade para escrever o que realmente me vem à cabeça, então vejam o mesmo como um diário. Que pode ter frases soltas e meio desconexas...mas enfim, chega de blábláblá.
Ah, o cais continua movimentado, tem barco todo dia para Santarém, e descobri que eles tem um valor menor do que eu pensava, no que concerne a passagem. Aqui tudo chega de barco. Agora por exemplo estão carregando cervejas para municípios menores. Antes estavam carregando farinha, sacos enormes, mas não sei de quantos quilos. As crianças estão aqui na frente pescando. Ah, ontem também pesquei um peixe, me limitei a um, e não foi por falta de tentativa. Mas não sei o nome dele não.
A noite não sei se vai ter alguma coisa, tínhamos combinado de tomar açaí, ainda não experimentei. Espero que seja melhor que tucupi e tacaca. Não gostei mesmo de experimentar isso. Mas não tenho do que reclamar. A tia do barco faz uma comida maravilhosa. E o creme de cupu nem se fala. Acabei com ele hoje de tarde.
Ah, queria postar fotos, mas a net é extremamente lenta, isso quando conecta. Assim que puder coloco aqui as fotos que já tirei...amanhã ou logo logo tem mais.
Abraços
Tchau!!!